domingo, 27 de junho de 2010

Favelinhas

Tal futilidade era avassaladora. Tais conceitos diziam-se por pragmatismo. Tais concepções costumam ser paradigmas. Entretanto, paradigmas estão em um ver pessoal extremamente restrito. São janelas particulares, diversas e extremamente quebradiças. São detalhes esmeros e subentendidos que superam os limites do luxo. Pois bem, deveras, seja inútil, seja fútil, seja luxuoso, entretanto, traduzia a felicidade e a graça. Olhava por entre os minúsculos cacos de vidro, pelos mosaicos e via através do espelho a janela. Via através da janela as crianças. E como eram insistentes. Lá estavam caçoando qualquer cantiga. Lá estavam soprando afobadas. Lá estavam refletindo o afobar das coisas. Bocejavam, mas não estavam cansadas. Não, senhor, não era uma bailarina que ali rodava. Não era música que aquilo tocava. Eram palhaços e todos caçoavam. O luxo era inútil: inútil. O pápápá era eterno. Os caminhos da fuga eram pré-determinados. A morte estava ao lado e a qualquer momento. O pápápá era uma orquestra. As crianças eram insistentes. As cantigas ressoavam e faziam o chão tremer levemente. O pápápá era reconfortante. O pápápá fazia esquecer seus derivados monossílabos sangrentos. E observava o fundo infinito. Era veludo aquilo. Era veludo xadrês e era verde e vermelho. A música vinha do fundo, de dentro, do gosto. A música dava gosto. Era canção de ninar, era canção clássica; Sentia como se pudesse tocar aquela música em todos os lugares. E os lugares eram tão infinitos. Sim, senhor, eram infinitos os lugares também. Os lugares nos quais queria estar. Os lugares nos quais sonhava, nos quais sentava, deitava, compunha, cantava e ouvia a música de ninar. E via a bailarina. E nesses lugares não tinham palhaços. Se pusera a acariciar os próprios fios. Os fios eram longos, senhor. Os fios até brilhavam. Brilhavam radialmente, iluminavam os olhares alheios que casualmente caíssem para dentro daquele mundo particular. Que por acaso atravessassem frestas. Frestas humildes devido a curiosidade. Pequenas, minúsculas e intermináveis frestas. Mal imaginava que colônias de frestas proporcionavam imensa imagem a cores. A mil cores que o mosaico em sua frente refletia de forma tão embaçada, mas tão linda. E qual imensa a curiosidade dos que se colocavam olheiros e se diziam curiosos. As crianças eram insistentes. Continuavam a cantar. Prosseguiam a pular. Mas a música era paradoxal. A música permitia cair em um abismo, mas a música permitia sossegar. Colocou-se a deitar a cabeça. A tranqüilidade, agora, predominava pois os palhaços não estavam mais lá. Roçou o couro cabeludo na madeira. Posicionou-se de tal forma a ver o mosaico da caixinha: Era vermelho, verde, azul e amarelo. Refletia bolinhas coloridas na parede. Era mosaico de princesa, senhor. Era o tão luxo de sua vida pois cantava, encenava e rodava. Melhor até que televisão, eis que era a caixinha. E na caixinha não se contorciam palhaços. E ao lado da caixinha foi anoitecendo. Mas as crianças, senhor, as crianças eram teimosas e não entravam. As crianças não se deixavam atrair pelo pápápá da caixinha. Elas apenas se atraiam como zumbis pelas cantigas que ressoavam e que completavam a música de ninar que a caixinha emitia. E a bailarina, toda metida, se fazia a rodar. A bailarina, senhor, parecia se exibir à ressonância das cantigas, que por sua vez balançava levemente o apoio e facilitava o giro. Era um caso de amor, se posso lhe dizer. Um caso de amor, com risos abafados no fundo, pois olhares vazios não percebem risos abafados. Olhares vazios não detectam o amor e nem sabem o que é amor. Só olham. Não enxergam, vêem. Anoiteceu. Apagaram a luz. Os cabelos estavam ali e estavam intactos refletindo o branco como em um disco que rodava. Rodava sua vida em todas as cores, como o mosaico. O mosaico iluminava sua vida de tal forma que o branco já era constante reflexão. E não via física alguma naquilo, senhor. Tão nova, tão inocente! A ignorância tal como as cantigas ressoava em compassos. Adormecera naquela noite enquanto a caixinha tocava e o mosaico refletia em sua forma arredondada a luz das estrelas que entravam nas pequenas grandes frestas. As estrelas podiam vê-la, senhor. Ah, se podiam, podiam sim! E lá estava, em um sono sereno de roncos afobados e, mais uma vez, abafados. E a bailarina parecia tão assustada. E os palhaços pareciam estar lá fora, rindo. No sonho, agradecia por não ver palhaços. Não eram assim tão engraçados. Mas as crianças eram tão insistentes, e ainda vagavam lá fora. Despertou, senhor. Com gritinhos. Gritinhos pela rota de fuga. Não se fez susto, não. Fez-se grande a orquestra agora. Grande que se tornou tão manso o pápápá. Tornou mansa a canção de ninar e já não podia ouvi-la. Era indistinguível o pápápá. Ouvia forte o Pá. E pensava nas crianças, tão insistentes. E ouviu mais Pá. E jurava estar em sonhos, porque as crianças fugiam. E foi ouvir mais perto, e das frestas saiu um Pá. E o pá cessou tão duramente o som da caixinha, Senhor! Precisava ver. Precisava ouvir. E Pá. As crianças saíam vivas. As crianças ressoavam seus passos firmes e entravam e suas casas. Mas a caixinha não mais tocava. Pá. Favelinhas, favelinhas. Numa queda foram ao chão. Pá. Os monossílabos sangrentos eram de um vermelho ainda não evidente. Pá. Ouvi o choro baixinho, senhor. E constatei que a partir daquele momento a caixinha, o vidro e o mosaico estavam despedaçados. E tão vermelhos, Senhor. Um vermelho fluido, um vermelho fúria, medo. Era tudo em paz. Estava tudo em paz. Mas os momentos estavam ainda ali, refletidos nos cacos de vidros quebrados. Os caquinhos pareciam contorcer favelinhas, Senhor. Pareciam mostrar convulsões de um sistema. E sim, pareciam agonizar junto à dona. Pareciam chorar. Pareciam movidos por ressonância. Como ressoavam. Como agonizavam. Convulsionavam chorando, de olhos fechados até. E a bailarina parecia lamentar algo. E a ressonância dos palhaços era tanta, Senhor. Foi por lá, falo, pelo vidro, que descobri toda essa história. E há pedaços que digam que entre os cacos vermelhos dava pra ver os restos verdes do xadrês de fundo. Estavam fragmentados. Mas o verde ainda estava lá, Senhor. O verde estava lá e lá continua. Vivo, Senhor, está vivo.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Ritmo Ordenado

Bonequinhos Plúmbeos, desperte-me o chumbo de corações maleáveis e vidas platônicas. Só não despertem o desejo de estar estático entre duras e equilibradas bolinhas de gude. Levantem a noite a um patamar acima e esmaltem os corações em proteção à vunerabilidade; A vunerabilidade que é mimesis de pose e distorções, ponderabilidade, prepotência. Pedantes, bonequinhos, simples pedantes lacônicos. Bonequinhos pedantes, olhem acima e reconheçam a ductibilidade das estrelas. Vejam como se transformam em fios. Fios de brilho que decaem progressivamente até mentes espaçadas e fechadas sob redomas gigantes. Redomas gigantes de vidros pequenos; dúcteis vidros; Líquidos vidros; Vidro cortante que desperta o sangue e cessa o vermelho, desperta o chumbo e cessa a vida, desperta o amor e cessa a misericórdia, desperta a vida diante da morte. Olhem para o céu, olhem as estrelas granadas. Vejam o núcleo despedaçado. Olhem abaixo. Não podem mais ver vidas. Estão cegos. Confundem a morte da terra com a vida no céu, as almas terrestres com os corpos celestes, o céu morto e cinza, a terra viva e negra. Agora, chumbinhos, dizem para marcharem em ritmo lento e frenético, dizem para permanecerem inócuos...Fazem-te percorrer um símbolo branco, fazem-te alienar em febres terçãs, fazem-te de gueixas e serviçais, de amores e paz forjados, de dor no verde esperançoso, de branco no verde vital. Eles te falam, eles te enganam, eles se dizem vitalícios, mas bem sabem, bonequinhos, o quão dispensáveis eles são. Mas bem sabem que acabam por depender de seus ventres e quão suas ordens são insignificantes. O tanto de lágrimas no chão vasto. O tão estreito de água numa poça nua e aglomerada. Vejam como o mundo é resultado do sincretismo, vejam como vocês mesmo se colocam sincréticos, e rodam, rodam, e entram em um fluxo gênico tão constante e belo; E rodam como uma furadeira, penetram no chão e nos corações, provocam dores, estragos e monotidão. Vejam como são colocados em um ponto isolado, vejam sua condição gasosa, quão estável, vejam como destinam-se aos centros, tão organizados, vejam como são belos e condenáveis. Vejam como penetram abrupdamente, vejam como pegam um fogo louco tão loucamente, vejam as chamas coloridas da dor, vejam o vermelho estrondoso do amor. Vejam que a vida não traduz mais nada, vejam que tudo se resume em cada...cada nó na garganta, cada bonequinho de chumbo, cada vida que passa por urânios enriquecidos: quando estabilizados chegam ao chumbo. A maleáveis corações plúmbeos.